O artigo analisa o termo grego aggareuein (ἀγγαρεύειν), traçando sua origem como um símbolo de opressão imperial desde a Pérsia até Roma, e demonstrando como Jesus o ressignificou no Sermão da Montanha, transformando um ato de humilhação forçada na prática libertadora e subversiva de "andar a segunda milha".
Por Pr Gilmar Tavares
O Novo Testamento, um compêndio de textos escritos em grego koiné, utiliza um vocabulário que, quando analisado em sua profundidade histórica e cultural, revela camadas de significado que transcendem as traduções convencionais. Um desses termos é o verbo aggareuein (ἀγγαρεύειν), que significa “obrigar a um serviço” ou “requisitar à força”. Embora apareça apenas três vezes, sua presença é um poderoso testemunho da realidade sociopolítica da Judeia sob o domínio romano. Este artigo propõe uma análise aprofundada de aggareuein, explorando sua origem no sistema imperial persa, seu uso como ferramenta de opressão no Império Romano e, finalmente, sua ressignificação radical na ética de Jesus Cristo, que transforma um ato de humilhação em um gesto de liberdade e graça subversiva.
1. A Genealogia do Poder: Da Pérsia a Roma
A etimologia de aggareuein (ἀγγαρεύειν) está intrinsecamente ligada à logística do poder imperial. O termo deriva do substantivo aggaros (ἄγγαρος), uma palavra de origem persa que designava os mensageiros do sistema de correio real. Este sistema, conhecido como angarion, foi estabelecido para garantir a comunicação rápida e eficiente através do vasto império. Historiadores como Heródoto e Xenofontes descreveram com admiração a rede de estações de revezamento, onde cavaleiros e cavalos descansados estavam sempre prontos para continuar a jornada. A eficiência do sistema dependia de uma autoridade legal quase ilimitada concedida aos mensageiros, que podiam requisitar à força, ou “angarariar”, qualquer recurso necessário.
Essa prática de requisição compulsória foi herdada e adaptada por outras potências. No mundo helenístico, por exemplo, “os Ptolomeus e os Selêucidas continuaram a usar esse sistema para seus próprios fins, requisitando trabalho, transporte e suprimentos da população local” (LIDDELL; SCOTT, 1996, p. 7). Essa tradição foi absorvida pelo Império Romano, onde a prática, conhecida como angaria, tornou-se um instrumento vital para a administração e o controle militar de suas vastas províncias.
2. Aggareuein como Ferramenta de Opressão na Judeia Romana
Na província da Judeia do primeiro século, a prática da angaria era uma realidade cotidiana e uma fonte constante de humilhação. A lei romana permitia que um legionário obrigasse um civil a carregar sua bagagem e equipamento por uma distância de uma milha romana (mille passus, cerca de 1.480 metros). Este não era um pedido, mas uma ordem incontestável. Como aponta R. T. France, essa prática era um “lembrete odiado da subjugação de Israel a um poder pagão” (FRANCE, 2007, p. 219). A requisição forçada era um símbolo visível e diário da perda de autonomia e da presença de uma força de ocupação.
A opressão era agravada pelo abuso de poder. Registros históricos indicam que essa autoridade era frequentemente extrapolada para além das necessidades militares, sendo usada para extorsão e para o “proveito particular” de oficiais e soldados. O teólogo Craig Keener observa que “tais requisições eram uma queixa comum nas províncias romanas, pois os soldados frequentemente exigiam mais do que a lei permitia” (KEENER, 2009, p. 192). Essa arbitrariedade intensificava o sentimento de impotência e ressentimento, tornando a angaria um dos pontos mais sensíveis na relação entre a população judaica e as autoridades romanas.
3. O Uso Neotestamentário: Contextualizando a Humilhação e a Subversão
O Novo Testamento emprega aggareuein (ἀγγαρεύειν) em três passagens que iluminam sua carga semântica:
- A Requisição de Simão de Cirene (Mateus 27:32; Marcos 15:21): A caminho da crucificação, os soldados romanos “obrigaram” (ēggareusan – ἠγγάρευσαν) Simão de Cirene a carregar a cruz de Jesus. A escolha deste verbo é crucial. Simão não é um discípulo voluntário, mas uma vítima da angaria. D. A. Carson ressalta que Simão foi “pressionado a servir contra a sua vontade, um destino comum para os habitantes de uma terra ocupada” (CARSON, 1984, p. 577). Este detalhe ancora a narrativa da Paixão na dura realidade da ocupação militar, mostrando Jesus e aqueles ao seu redor como sujeitos à autoridade coercitiva de Roma.
- O Sermão da Montanha e a Ética da Segunda Milha (Mateus 5:41): É no Sermão da Montanha que Jesus subverte radicalmente o significado de aggareuein. Ele instrui: “Se alguém te obrigar (aggareusei – ἀγγαρεύσει) a andar uma milha, vai com ele duas”. Em um contexto onde a primeira milha era um símbolo de opressão, a segunda milha se torna um ato de liberdade chocante. O estudioso Walter Wink classifica esta ação como uma “terceira via” de resistência não-violenta, argumentando que “a resposta de Jesus não é nem submissão nem resistência violenta, mas uma afirmação militante da dignidade de alguém como filho de Deus” (WINK, 1992, p. 18). Ao ir a segunda milha, o indivíduo oprimido retoma a iniciativa, quebra o ciclo de humilhação e confronta o opressor com uma generosidade que o desequilibra.
Conclusão
A jornada semântica de aggareuein (ἀγγαρεύειν), de uma ferramenta logística persa a um símbolo de opressão romana e, finalmente, a um princípio da ética cristã, demonstra a capacidade da linguagem de encapsular complexas realidades históricas. O teólogo N. T. Wright sintetiza a genialidade do ensinamento de Jesus ao afirmar que, ao andar a segunda milha, “você está tomando o controle da situação, afirmando sua própria dignidade humana e mostrando ao soldado que você é um agente moral livre, não uma mera besta de carga” (WRIGHT, 2004, p. 59). O uso do termo no Novo Testamento ancora a narrativa na brutalidade da ocupação, mas, mais importante, transforma um instrumento de coerção em um convite à liberdade. A “segunda milha” torna-se um paradigma para responder à injustiça não com retaliação ou submissão, mas com uma graça proativa que desafia as estruturas de poder e afirma a dignidade inabalável do ser humano.
Referências
CARSON, D. A. Matthew. In: GAEBELEIN, Frank E. (Ed.). The Expositor’s Bible Commentary. Vol. 8. Grand Rapids: Zondervan, 1984.
FRANCE, R. T. The Gospel of Matthew. Grand Rapids: Eerdmans, 2007.
KEENER, Craig S. The Gospel of Matthew: A Socio-Rhetorical Commentary. Grand Rapids: Eerdmans, 2009.
LIDDELL, Henry George; SCOTT, Robert. A Greek-English Lexicon. 9. ed. Oxford: Clarendon Press, 1996.
WINK, Walter. Engaging the Powers: Discernment and Resistance in a World of Domination. Minneapolis: Fortress Press, 1992.
WRIGHT, N. T. Matthew for Everyone, Part 1: Chapters 1-15. Louisville: Westminster John Knox Press, 2004.




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