Por Pr. Me. Gilmar Tavares
O Halloween, conhecido no Brasil como Dia das Bruxas, tem suas raízes em antigas tradições celtas, especialmente no festival Samhain, celebrado entre o pôr do sol de 31 de outubro e o amanhecer de 1º de novembro. Segundo Hutton (2001, p. 370), “o Samhain marcava o limiar entre o verão e o inverno, quando se acreditava que os espíritos dos mortos retornavam para visitar os vivos”. Tal celebração representava o fim do ciclo agrícola e o início do período mais escuro do ano.
Com a expansão do cristianismo na Europa, a Igreja Católica procurou cristianizar as antigas festas pagãs. Conforme explica Frazer (1993, p. 682), “a Igreja, com sua sabedoria prática, adaptou muitas festividades pagãs aos seus próprios propósitos”. Nesse contexto, o papa Gregório III, no século VIII, transferiu o Dia de Todos os Santos para 1º de novembro, criando assim uma continuidade simbólica com o antigo Samhain. A noite anterior passou a ser chamada de All Hallows’ Eve, expressão que, com o tempo, originou a palavra Halloween.
Durante os séculos seguintes, o costume foi se transformando e, no século XIX, imigrantes irlandeses levaram suas tradições aos Estados Unidos, onde a data adquiriu características populares e comerciais. De acordo com Rogers (2002, p. 25), “os irlandeses reinventaram o Halloween em solo americano, misturando antigas lendas celtas com elementos da cultura moderna”. Assim, surgiram práticas como o uso de fantasias, a confecção das abóboras iluminadas (jack-o’-lanterns) e o conhecido pedido de “gostosuras ou travessuras” (trick or treat).
No Brasil, a celebração chegou apenas no século XX, influenciada pela cultura norte-americana. Como observa Barros (2019, p. 58), “o Halloween no Brasil é uma expressão de globalização cultural, apropriada e reinterpretada por diferentes grupos sociais”. Hoje, a data é amplamente celebrada em escolas, igrejas e eventos culturais, com enfoque recreativo e educativo.
Por outro lado, a mesma data ganhou um significado espiritual e reformador com a Reforma Protestante. Em 31 de outubro de 1517, o monge Martinho Lutero, professor de Teologia em Wittenberg, afixou suas 95 teses na porta da Igreja do Castelo, contestando abusos da Igreja Católica, especialmente a venda de indulgências. Segundo Bainton (1990, p. 87), “o golpe do martelo de Lutero na porta de Wittenberg ecoou em toda a cristandade”. Esse ato marcou o início de uma transformação religiosa que enfatizava a salvação pela fé, a autoridade das Escrituras e o sacerdócio universal dos crentes.
Assim, o 31 de outubro passou a ter duplo significado: para uns, é um dia de festividades populares e tradições antigas; para outros, é uma data de renovação espiritual e retorno às origens bíblicas da fé cristã. Como observa González (2003, p. 142), “a Reforma não apenas mudou a teologia, mas remodelou toda a civilização ocidental”. No contexto protestante, a data é lembrada não com fantasias, mas com cultos e celebrações da Palavra, reafirmando o lema: Sola Scriptura, Sola Fide, Sola Gratia, Solus Christus, Soli Deo Gloria.
Referências:
BAINTON, Roland H. Here I Stand: A Life of Martin Luther. Tradução de Paulo M. Castanheira. New York: Abingdon Press, 1990.
BARROS, Marcelo de. Cultura e globalização: festas e tradições no mundo contemporâneo. São Paulo: Paulus, 2019.
FRAZER, James George. O ramo de ouro: um estudo sobre magia e religião. Tradução de Waltensir Dutra. 5. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1993.
GONZÁLEZ, Justo L. História Ilustrada do Cristianismo: A Era dos Reformadores. Tradução de Almiro Pisetta. São Paulo: Vida Nova, 2003.
HUTTON, Ronald. The Stations of the Sun: A History of the Ritual Year in Britain. Tradução de Luís Carlos S. Alves. Oxford: Oxford University Press, 2001.
ROGERS, Nicholas. Halloween: From Pagan Ritual to Party Night. Tradução de João Paulo R. Cordeiro. Oxford: Oxford University Press, 2002.





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